terça-feira, 5 de abril de 2016

Finalmente sabemos como o vírus zika se parece



Aqui está, pessoal – pela primeira vez podemos olhar para o abominável vírus que aterroriza o Brasil, além de outros países da América do Sul e do Caribe. Esta visualização em escala quase atômica da estrutura externa do zika pode ajudar cientistas no desenvolvimento de tratamentos e vacinas antivirais efetivos.
O vírus zika foi descoberto em Uganda em 1947, mas não era considerado perigoso, o que contribuiu para a sua designação de doença tropical negligenciada. Mas as coisas mudaram bastante desde o início do surto de zika no Brasil e em outras partes do mundo. O vírus que se hospeda no mosquito da dengue agora está sendo vinculado à microcefalia, uma condição na qual o cérebro fetal cresce de maneira anormalmente pequena; e também à síndrome de Guillain-Barré, que causa paralisia temporária.
Cientistas têm trabalhado arduamente ao longo dos últimos meses para aprender mais sobre esse vírus. Na mais recente descoberta, uma equipe liderada por pesquisadores da Universidade de Purdue se tornou a primeira a visualizar a estrutura do vírus zika, que pode ser visto em detalhes na Science. O novo mapa em escala atômica mostra características da superfície que podem ser exploradas por cientistas conforme eles trabalham na criação de tratamentos e vacinas.
“Este avanço ilustra não apenas a importância da pesquisa básica para a melhoria da saúde humana, mas também a agilidade em solucionar rapidamente uma questão global,” disse o presidente de Purdue, Mitch Daniels, em um comunicado. “Esta talentosa equipe de pesquisadores solucionou um quebra-cabeças muito difícil em um período curto de tempo, e ofereceu aos que trabalham no desenvolvimento de vacinas e tratamentos para parar o vírus um mapa para guiar o caminho.”
Partículas congeladas do zika. Imagem:  D. Sirohi et al., 2016/Science
Os pesquisadores Richard Kuhn, Michael Rossmann e seus colegas criaram uma imagem de uma partícula zika madura usando uma técnica chamada microscopia crioeletrônica. Após congelarem as partículas dos vírus, os cientistas dispararam um fluxo de elétrons de alta energia através da amostra para criar dezenas de milhares de imagens de micrografia eletrônica 2D. Isso possibilitou a criação de uma visualização composta em 3D e alta resolução do vírus zika. Normalmente, cientistas usam cristalografia de raio X para visualizar vírus, mas a nova técnica não só é mais rápida como também mais precisa.
A primeira coisa que os cientistas perceberam é como ele é parecido com outros flavivírus – vírus que são transmitidos via mosquitos infectados, como dengue, febre amarela e vírus do Nilo Ocidental. O zika, como outros flavivírus, conta com o genoma RNA envolvido por uma membrana gordurosa dentro de um corpo de proteína icosaedral. Essa é uma excelente notícia porque significa que os esforços em andamento para criar vacinas contra a dengue podem ser aplicados também no zika.
Vírus zika. Imagem: D. Sirohi et al., 2016/ScienceMas a partícula do zika contava também com uma diferença em uma proteína importante de superfície, chamada e glicoproteína. Cerca de 180 desses objetos se sobressaem a partir da superfície da partícula (mostrados em vermelho), permitindo que o vírus se prenda a certas células humanas, incluindo anticorpos e receptores do hospedeiro. Essas saliências aparecem também no vírus da dengue, mas as características únicas da E glicoproteína do zika podem explicar porque ele consegue atacar células nervosas e outras importantes para o desenvolvimento normal do cérebro fetal.
“Se isso funcionar como na dengue e estiver envolvido na ligação às células humanas, pode ser um bom ponto para ser atacado por um composto antiviral,” notou Rossmann. “Se for o caso, talvez um inibidor possa ser projetado para bloquear essa função e impedir que o vírus se prenda e infecte células humanas.”
Alternativamente, uma vacina pode ser desenvolvida com a glicoproteína como alvo. A partir de agora, a equipe quer localizar mais possíveis pontos a serem explorados, e também quer desenvolver compostos terapêuticos.
Imagens via Science

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